Mepaba – I

Fomos nós três ao cinema. 

– Filme McDonald’s, por favor. Duas inteiras e uma meia. 

Coisas do agismo.

– Não, obrigado. Somente as entradas.

Tudo mais barato na Mexicanas.

Salgadinho, suco, água nestlificada de nossas torneiras e chocolate sucrantemente colorido (há! TOMa esta Veloso! E aí Zeh! ;).

Sessão das 11:15 de domingo também porque é mais barato.

Viemos à pé, nem precisa explicar.

À preço de banana já foi há muito tempo.

Para o alto e avante em direção ao preço da pipoca.

Começa o filme e abrimos o contrabando comestível.

Mc q q nós comemos então, senão Donald’s?

Deixo vocês adivinharem o nome do filme 😉

– Ói! Então o marreco e o ratinho são da mesma gangue que explora patetas no sul florido (beijo Ferino e CIA). Quem imaginaria…

Donald’s na gueule servido gargantuescamente por um tal de Bernays. Edward Louis, acho.

Mais açúcares trans saturados de gênero, desta vez pelas córneas pois as veias já estão ocupadas. 

– O orifício auditivo tá livre?

Acompanham doses de MELOdias colantes para acabar com o vazio no curto espaço-tempo entre uma idéia e outra. 

Por aqui chamam de verme de ouvido. 

Também serve para vender batom. 

Bernays, claro.

Fim apoteótico depois de um começo idílico e alguns tropeços apocalípticos durante o trajeto. 

Nenhum morto. 

Alguns… Mas eles foram os responsáveis!

Nenhum animal foi maltratado durante as filmagens.

Divagando, jamais suficientemente…

Finalmente, como na « bíblia para os nulos », eles também falavam. 

Os animais. 

Me pergunto honestamente nestes momentos se isto serve como evidência para os terraplanistas.

Todo mundo já consumiu um trio McBlockBuster com fritas e coca-loca onde eles cantam.

Os animais. 

Daí pandinha fala, burrinho fala… 

Até gado fala. Mas não pensa!

O Jonas só passou três dias em cruzeiro cetáceo porque era o mais longe possível. A borda… 

Daí é só saltar, diz a Dra. Luana.

Vamos comer algo no parque calórico ao lado do cinema. 

Eu e ela escolhemos uma salada com pedaços de frango em um genérico local.

Ele queria comer Disney. 

– Depois eu te levo numa loja genérica onde você vai poder comprar a gangue toda e não vai nem precisar comer o papel da embalagem.

Não deu.

É claro que servem algo que não se parece em nada com a foto. 

Pelo menos não a parte declarada como « comestível ». Michael Douglas…

Por outro lado a caixinha, uma vez aberta virava um cenário de floresta para o leãozinho. 

Esta parte conferia com a foto.

Bernays, Bernays…

Nós ainda comíamos e conversávamos enquanto ele passava da alegria efêmera proporcionada pelo brinquedo à triste constatação de que realmente a embalagem que acompanhava o leãozinho não era suficiente para saciar sua fome.

Percebemos, claro. 

Fiz sinal para que ela esperasse um pouco.

? Gostou 

! Sim

Silêncio…

? Tudo bem

Silêncio…

? Tá com fome ainda 

! Sim

? Quer um kétxupe pra botar no leãozinho ???

O olhar dela era bizarro. 

Uma mistura de « Como você diz uma maldade desta ? » com « Eu quero rir mas não posso ! ». 

Próximo do olhar « Em casa a gente conversa. »

Levantei rapidamente e fui buscar um genérico de frango com salada.

Tirei-lhe a chance de rir desculposamente à distância. Sou mau. 

Ela cedeu à culpa e riu. 

Disse que fui eu quem a tentou ao riso. Sim, é verdade.

Voltamos à pé.

Desta vez rimos por último, Bernays. Ainda rimos muito.

Culpa ? Não… 

Deixamos na Disney.